Viseu

Se há cidades que não poderiam deixar de existir, Viseu é uma delas. Tem a fatalidade do centro geométrico: ali pousou a ponta do grande compasso com que os deuses planearam a paisagem circundante e lá ficou a marca indelével. Nasceu por ser um centro, cresceu por ser um centro, continua a desenvolver-se por servir de centro a uma área geográfica e económica cada vez mais vasta. E o forasteiro que ali chega apercebe-se logo disso: a cidade recebe-o numa rotunda de vários caminhos, donde o remete para outra rotunda, e daí para outra, e outra, e outra ainda. Tanta rotunda, desabafa o forasteiro já impaciente. Mas cai em si, reflecte, e conclui que nenhuma imagem de Viseu podia ser melhor que aquela.

A cidade foi, desde as suas origens, a grande rotunda da Beira Alta, o lugar de encontro do norte e do sul, dos salineiros do litoral com os lavradores das charnecas e os artesãos das vilas ao redor. Ponto de encontro, de passagem, de permuta, de negócio, centro de domínio, lugar de comando, é tudo isso o que explica o excepcional papel que a cidade de Viseu tem desempenhado na evolução do país ao sul do Douro.

Logo a implantação histórica é emocionante: centro de um planalto de terras de relativa fartura, predestinadas para uma produção vinícola de rara qualidade e emoldurado a toda a volta pelos perfis montanhosos das serranias beirãs. O traçado forma um oval imenso, que faz lembrar os muros dos bardos e as muralhas das vilas mais antigas. E é no centro do anel montanhoso que nasce Viseu.

Não se pode dizer que a colina sagrada onde hoje está a catedral seja ou tenha sido, uma acrópole. Mas é um vigoroso picote a cavaleiro do rio Paiva, que já terá sido fosso natural de maior aspereza. A elevação relativamente ao nível do mar é hoje de 490 metros e foi nessa colina abrupta que se estabeleceram os primeiros moradores. Viseu tem na sua origem, como tantas outras cidades portuguesas, um castro neolítico, mas esse castro foi o escolhido pelos romanos para, a partir dele, dominarem todos os outros castros do áspero país entre o Mondego e o Douro, que era então fronteira da Galiza.
A curiosidade toponímica quer então saber as raízes do nome, mas não há respostas seguras. Melhor dizerndo: muitas propostas, nenhuma certeza. Sabemos que no concílio de Lugo, do ano de 569, foram fixados os limites da diocese de Viseu, a que aí se chama Veseo. Muito mais tarde o Chronicon Silense, do século XI, dá-lhe o nome sugestivo de Castro Vesense. Sugestivo porque então Vesi significava Visigodos e a expressão levaria a pensar que o nome literal seria Castro dos Visigodos. Penso que, apesar das aparências eruditas também essa etimologia é fantasiosa.

É seguro que ali havia um castro, que os romanos o dominaram e que se instalaram não propriamente nele, mas na vizinha Cava, uma fortificação artificial instalada no outro lado do rio Pavia. É dos mais curiosos e enigmáticos documentos da romanização da Lusitânia.

O conjunto é uma espécie de recinto fortificado, não por muralhas mas por grandes parapeitos de terra batida, com uma forma octogonal e uma superfície interior de cerca de trinta hectares. O valor defensivo da obra ressalta com evidência quando se pensa que era possível desviar para ali o curso do rio Pavia, que rodeava os parapeitos e desencorajava os assaltos. Mas também esta é uma hipótese aventada pelos arqueólogos porque não sabemos que tal operação tenha sido praticada alguma vez. Indício seguro é o que nos dá uma moeda de prata que ali foi achada. Foi cunhada entre 40 e 41 antes de Cristo. Portanto no período em que o cônsul decio Junio Bruto faria as campanhas mais duras contra os lusitanso. A amplidão da Cava revela que aqui se concentraram muitos milhares de pessoas. Foi a Cava, durante os primeiros séculos da nossa era, o quartel-general da romanização. Talvez isso ajude a entender o papel dominante que Viseu teve, em toda a Beira e que ainda hoje se faz sentir.

A colina da Sé e a Cava são os dois óvulos primários. Entre um e o outro núcleo - um celtibérico, outro romanizante - nasceu uma vila intermédia de fornecedores, serviçais, negociantes. Corresponde esse núcleo ao que hoje chamamos Cidade Velha. As invasões bárbaras do séc. V desmantelaram tudo isso: os legionários fugiram, a choldraboldra da cidade velha - bufarinheiros, traficantes, vivandeiras - foi momentaneamente dispersa, mas não tardou a reencontrar-se. A prova é que Viseu, já o vimos, foi escolhido no século VI para cabeça de diocese.

E já temos quatro estações para a via histórica de Viseu: (1) Castro Cestibérico; (2) O Acampamento Romano; (3) O Burgo dos Mercadores; (4) A Paróquea Sueva.
O passo seguinte é a Viseu Muçulmana, de 712 a 1057, data da reconquista definitiva por Fernando Magno, rei de Castela e Leão. É um período sangrento de ataques e contra-ataques e toda a gente a morrer ou a fugir quando a cidade mudava de mão. Até um rei aqui encontrou a morte: Afonso V, rei de Leão, trespassado por uma seta agarena, em 1027 quando queria reconquistar a cidade. Quem lembra hoje quem era esse Afonso V, ou quem sabe que remotas relações podia ter com o reino mascituro de Portugal? Pois era o pai de D. Sancha, que casou com Fernando de Castela e levou como dote o reino de Leão. Desse casamento nasceu Afonso VI, chamado Imperador porque reinava nos dois reinos. Da filha deste, Teresa, nasceu Afonso Henriques, que se pode intitular rei por ser neto do Imperador.

E esse é mais um dos mistérios da história da cidade: onde nasceu Afonso Henriques? A tradição que nenhum documento até hoje contraditou aponta para o Castelo de Guimarães, mas a investigação minuciosa objecta que, no lugar onde hoje é o claustro da catedral, existiram outrora os paços condais e que não é impossível que aí residisse a condessa-rainha quando D. Afonso Henriques nasceu. Seria mais uma condecoração histórica para enaltecer a Capital da Beira Alta. Mas Viseu já tem tantos títulos ilustres que bem pode dispensar essa polémica.



Autor: José Hermano Saraiva in Guia das Cidades e Vilas Históricas de Portugal publicado pelo jornal Expresso